Farol de Mosqueiro

Farol de Mosqueiro
Farol de Mosqueiro

segunda-feira, 6 de abril de 2015

O Sítio Paraíso.


Diferentemente do Sítio Conceição, não tive a oportunidade de conhecer o Sítio Paraíso quando ele ainda era ocupado pelos seus proprietários. Na época em que eu perambulava despretensiosamente pela praia do Paraíso, sempre ouvi falar de uma construção antiga que a população local se referia como a casa dos Travassos ou como uma senzala onde moravam os escravos que ali trabalharam. Também me contaram que as águas daquela praia eram encantadas e que a responsável por isso era uma bela mulher que morava naquele casarão, muitos teriam a visto tomando banho em noites de lua cheia. A minha ignorância juvenil não permitia identificar que se tratava de “Sítios irmãos”, o Sítio Paraíso e o Sítio Conceição tinham a mesma origem histórica e patrimonial.

Ilustração do Sítio Paraíso, em aquarela, de D'Arcy Albuquerque, reproduzida da obra Encantos e Encantamentos em uma Ilha do Rio Mar de Eduardo Brandão e Amaury Dantas.


Nesta publicação, o Blog Mosqueiro Pará Brasil pretende dar sequência ao seu esforço de resgatar e preservar a memória da Ilha. Nela contaremos um pouco da história desta propriedade, detalhes arquitetônicos e de possíveis caminhos para o resgate e valorização dessa memória.

Um pouco de História.

O terreno onde se localizava o Sítio Paraíso foi resultado do desmembramento das terras ocupadas por Simão Nunes e doadas, em 06 de dezembro de 1746, para o seu filho, Padre Antônio Nunes da Silva, através de Carta e Data de Sesmarias. Integrante da terceira geração dos Silva, Tomaz da Silva com sua esposa Izabel tiveram quatro filhos: Fernando, Jorge, Leocádio e Tomaz Filho. Para cada filho ficou uma determinada porção de terra. Desse modo, a propriedade foi assim dividida: ao Fernando, coube o sítio Paraíso; ao Jorge, o Sítio Paissandu; ao Leocádio, o sítio Conceição; e ao Tomaz Filho, as áreas de terra da Fazendinha. Maiores detalhes sobre essa história, já foram relatados no Blog Mosqueiro Pará Brasil através dos artigos A família Silva e as terras da Baía do Sol em Mosqueiro e O Sítio Conceição.

Esta família constituía os latifundiários da época naquela região de Mosqueiro. Era dona de escravos e tinha grande poder social e econômico. Nas suas terras havia muitas plantações de pimenta-do-reino, roçados, hortas, criação de animais e muitos criados ou serviçais. Relatos referem-se à existência de uma senzala, o que supõe um período de escravidão.

Assim sendo, o Sítio Paraíso foi construído por Fernando Silva com auxílio de seus escravos. Herdeira de Fernando, sua filha Ana Silva contrai matrimônio com o português José Travassos. Este enlace matrimonial irá determinar que a propriedade passasse a ser administrada pela família Travassos. Durante muito tempo o sítio Paraíso serviu como retiro para os estudantes primários do colégio Santo Afonso, o qual tinha a família Travassos como mantenedora. Embora o sítio tenha se tornado conhecido, por muitos, como a residência dos Travassos, devemos reconhecer em seus descendentes a presença da carga genética dos Silva.

A Casa Grande do sítio Paraíso vem passando por um longo processo de depredação e abandono. D. Antônio de Almeida Lustosa, na sua obra No Estuário Amazônico, em edição de 1976 do Conselho Estadual de Cultura do Pará, já alertava para a decadência do referido sítio:

“Deixamos o Paraíso bem perto do igarapé do Sucurijuquara. As ideias de paraíso e da serpente se associam facilmente. Esse Paraíso teve mais ou menos a sorte do Éden. Era outrora florescente, teve sua bem cuidada capela: hoje não é bem o Paraíso Perdido de Milton, mas tampouco é o ameníssimo jardim que nossos primeiros pais gosaram, nem mesmo o que os últimos proprietários conheceram”.

O mesmo foi destacado pelo professor La Rocque: “A decadência referida, muito antes de 1976, caminhou para o estado precário do Sítio Paraíso em 1988, quando da visita da equipe de pesquisa da UFPA...”.

Se antes o estado já era precário, o que constatei na visita que fiz, em 20 de junho de 2007, foi uma situação de quase total ruína da Casa Grande. Completamente tomada pela vegetação, pouco sobrou da construção original, um pequeno pedaço da varanda, o dormitório e o cômodo que ladeiam a capela e parte desta é o que posso dizer que ainda resistia.

Detalhe da parede da varanda da Casa Grande do Sítio Paraíso
(Foto: Eduardo Brandão - 2007) 

Detalhe da parede de um dos cômodos da Casa Grande do Sítio Paraíso
(Foto: Eduardo Brandão - 2007)


Apesar da precariedade, ainda foi possível observar que o ladrilho hidráulico da capela e de seu acesso ainda estava preservado, detalhes construtivos como beirais, estrutura e revestimento das paredes, telhas originais, ferragens e armadores de rede feitos de madeira foram registrados através de fotografias.

Detalhe do ladrilho hidráulico existente na varanda e na Capela da Casa Grande do Sítio Paraíso
(Foto: Eduardo Brandão - 2007)
Detalhe do beiral da Casa Grande do Sítio Paraíso
(Foto: Eduardo Brandão - 2007)

Detalhe da parede em enxaimel da Casa Grande do Sítio Paraíso onde pode ser observado algumas "caracas" evidenciando que esse material foi retirado da praia.
(Foto: Eduardo Brandão - 2007)

Detalhe de parede interna da Casa Grande do Sítio Paraíso onde se destaca o armador de redes feito em madeira. (Foto: Eduardo Brandão - 2007)


Da mesma forma que o Sítio Conceição, o Sítio Paraíso possuía uma Capela, esta dedicada à Santana. Em virtude do abandono da propriedade, alguns saques ocorreram motivados por um boato de que havia um tesouro escondido em baixo do altar. Para evitar a destruição total, integrantes da comunidade local, devotos de Santana, construíram uma nova Capela ao lado da propriedade do Hotel Paraíso, para onde levaram a imagem que ficava no Sítio. Desta forma, o culto de Santana seguiu o seu curso na história.

Detalhe do Altar da Capela existente na Casa grande do Sítio Paraíso.
(Foto reproduzida da publicação Vivendas Rurais do Pará - 1988)
Detalhe da base do altar da Capela da Casa Grande do Sítio Paraíso, destruído e escavado devido aos boatos de que haveria um tesouro enterrado embaixo dele. (Foto: Eduardo Brandão - 2007)
Capela construída pela comunidade em substituição à existente no Sítio Paraíso. 
(Foto: Eduardo Brandão - 2007)

Imagem de Nossa Senhor de Santana trazida da Capela existente no Sítio Paraíso. 
(Foto: Eduardo Brandão - 2007)


O levantamento feito pelo professor La Rocque, cujos resultados constam na publicação Vivendas Rurais do Pará, foi fundamental para permitir a localização dos cômodos, inclusive da copa/cozinha que ficava fora do corpo da casa. Sua importância também se revela no caso de um possível interesse de recuperação do imóvel seguindo suas linhas originais.

Hoje, as ruínas da casa Grande do sítio Paraíso encontram-se na propriedade do Paraíso Praia Hotel e Resort. A região passou a ser muito procurada por turistas que buscam praias em Mosqueiro com características bucólicas, isto é, locais onde a intervenção humana não eliminou a possibilidade das pessoas interagirem com elementos da natureza, este ainda é o caso da praia do Paraíso. Sabemos que novos usos são dados a esses territórios, porém, mais do que nunca, reconhecemos a importância de ações no sentido de preservar a memória do lugar, a recuperação da Casa Grande do Sítio Paraíso se apresenta como um novo e grande desafio.

Aspectos Arquitetônicos.

A Casa Grande está localizada nos limites do terreno do Paraíso Praia Hotel e Resort e dista cerca de cento e cinquenta metros da praia. Um muro de alvenaria foi construído no seu entorno com a justificativa de evitar que ele continuasse a ser saqueado. Na direção do casarão, a orla apresenta uma área bosqueada, que começa a ser ocupada por barracas/restaurantes de praia.

Tomando como base o levantamento feito por SOARES, o casarão possuía duas varandas, uma na parte da frente, estendendo-se por toda a fachada, e outra na parte de trás do imóvel; seis dormitórios; um banheiro; uma capela com sacristia anexa; dois cômodos com utilização não identificada e uma copa/cozinha construída fora do corpo principal da casa.

O Sítio Paraíso integrou o conjunto de sete vivendas onde SOARES levantou seus aspectos arquitetônicos que foram devidamente registrados através de tabelas discriminando os elementos construtivos, planta baixa, elevações e fotografias.


Elementos construtivos do prédio principal do Sítio Conceição

Item
Discriminação
Local e acesso
Mosqueiro – Baía do Sol. Praia do Paraíso
Estado de conservação
Precário, exige restauração urgente: mesmo assim, habitado pelo proprietário e família.
Pisos
Cimentado na grande Varanda. Capela com ladrilho regional (hidráulico), inclusive o seu acesso. Cimentado no anexo posterior, tábuas pouco regulares nos dormitórios; novos sanitários internos em ladrilhos cerâmicos.
Altura do assoalho
Variação de 0,30 a 1,20 m devido a inclinação do terreno.
Paredes externas
Enxaimel substituídas por alvenaria (atualmente) sem reboco, inclusive o parapeito da varanda. Pequeno trecho em madeira.
Paredes internas
Enxaimel (as antigas) e as modernas em diversos materiais. Pé direito varia em torno de 3,5 m.
Varandas e pátios
Ao longo da fachada (perpendicular a praia). Parapeito de fechamento sem janelas em cima. Pequena varanda superior onde depois construíram sanitários.
Forros
Só existe na capela, em réguas pouco regulares, substituindo a talha antiga da qual só resta o medalhão central, encontrado no chão.
Telhados
Telha de barro “canal” no prédio principal e áreas cobertas posteriores. Estruturas: madeira em seção retangular.
Beirais
Caibros serrados (seção retangular) com cachorros formando um ângulo do telhado “mole”. 0,60 m.
Escadas
Todas em alvenaria de pedra e cimento alisado.
Capela
Dedicada a “Nossa Senhora de Santana”. Tem sacristia anexa: Altar de alvenaria de tijolo, pintura lisa comum, retábulo simplório.
Ambiente, paisagem e cruzeiro
Paisagem com praia de um lado e capoeirão envolvendo todo o resto de seu perímetro. A vegetação é muito provável ser primitiva, mas já há loteamento imobiliário próximo, ameaçando esse ambiente natural. A praia está a 150 m do prédio.

Planta Baixa


Elevações


Fotografias

Detalhe da porta da Capela existente na Casa Grande do Sítio Paraíso. 
(Foto reproduzida da publicação Vivendas Rurais do Pará - 1988)
Detalhe do vão da porta da Capela, existente na Casa Grande do Sítio Paraíso, visto de fora para dentro. 
(Foto: Eduardo Brandão - 2007)

Detalhe do vão da porta da Capela, existente na Casa Grande do Sítio Paraíso, visto de dentro para fora. 
(Foto: Eduardo Brandão - 2007)
Detalhe da varanda na Casa Grande do Sítio Paraíso. 
(Foto reproduzida da publicação Vivendas Rurais do Pará - 1988)
Detalhe das ruínas varanda na Casa Grande do Sítio Paraíso. 
(Foto: Eduardo Brandão - 2007)
Detalhe de janela de cômodo na Casa Grande do Sítio Paraíso. 
(Foto reproduzida da publicação Vivendas Rurais do Pará - 1988)

Detalhe das ruínas de janela de cômodo na Casa Grande do Sítio Paraíso. 
(Foto: Eduardo Brandão - 2007)

Detalhe de janela de cômodo na Casa Grande do Sítio Paraíso. 
(Foto reproduzida da publicação Vivendas Rurais do Pará - 1988)

Detalhe das ruínas na Casa Grande do Sítio Paraíso. 
(Foto: Eduardo Brandão - 2007)
Perspectiva frontal da Casa Grande do Sítio Paraíso. 
(Foto reproduzida da publicação Vivendas Rurais do Pará - 1988)
Perspectiva lateral da Casa Grande do Sítio Paraíso. 
(Foto reproduzida da publicação Vivendas Rurais do Pará - 1988)
Cozinha da Casa Grande do Sítio Paraíso. 
(Foto reproduzida da publicação Vivendas Rurais do Pará - 1988)
Alpendre na Casa Grande do Sítio Paraíso. 
(Foto reproduzida da publicação Vivendas Rurais do Pará - 1988) 
Detalhe de cômodo na Casa Grande do Sítio Paraíso. 
(Foto reproduzida da publicação Vivendas Rurais do Pará - 1988)
Detalhe de Talha encontrada na Casa Grande do Sítio Paraíso. 
(Foto reproduzida da publicação Vivendas Rurais do Pará - 1988)


Conclusões e Propostas.


As fotos mostradas acima nos trazem uma dolorosa conclusão - o Sítio Paraíso não teve a mesma sorte que o Sítio Conceição. Talvez pelo fato da propriedade ter saído prematuramente da administração da família Silva. De qualquer forma, O Blog Mosqueiro Pará Brasil insiste em registrar sua memória.

A razão de minha visita àquela propriedade, em 2007, era o desejo dos proprietários do Hotel Paraíso em iniciar um estudo capaz de apontar alternativas para as ruínas da Casa Grande do Sítio Paraíso. Com a ajuda do filho do dono do Hotel e de um funcionário foi possível identificar o que restou da edificação e fazer um registro fotográfico daquele momento.

Entre as sugestões apresentadas, considerando que o imóvel não era tombado, foi sugerido a reconstrução do mesmo utilizando as técnicas construtivas originais e a rigorosa reprodução de sua estrutura que ficou documentada no trabalho do Prof. La Rocque. Refeita a edificação, ela poderia se tornar um espaço resgatando a memória do lugar e aberto à visitação de turistas e estudantes. Também poderia ser aproveitado para realização de eventos como casamentos e outros. Em resumo, um equipamento que agregaria valor àquele empreendimento turístico.

Outra alternativa apresentada foi o levantamento arqueológico do lugar realizando estudos mais detalhados e profundos. Com os resultados da pesquisa em mãos, aquele espaço também passaria a ser ponto de visitação e agregador de valor para o produto do Hotel.

Passados 8 anos, continuo achando que as duas propostas ainda são viáveis, submetidas é certo, à avaliações de especialistas em patrimônio e da atividade turística. Enquanto os sinais positivos não chegam, vou continuando o meu papel de registrar a memória de Mosqueiro.   


quinta-feira, 2 de abril de 2015

O Sítio Conceição.

Dedico essa publicação para João Cláudio Cordeiro da Silva, cuja dedicação permitiu a preservação do Sítio Conceição, tão importante  para a memória de Mosqueiro.


Quando éramos pequenos e meus pais já haviam construído a casa deles na Rua Luís Clementino, algumas vezes fomos visitar uma família amiga que possuía uma casa muito diferente daquelas que estávamos acostumados a ver em Mosqueiro. Todos dentro do carro nos dirigíamos pela estrada que dava acesso à Vila da Baía do Sol, no meio do percurso havia uma pequena cancela do lado esquerdo, meu pai parava o carro, abria a cancela e entrávamos em um caminho estreito no meio da floresta que ali existia. A partir desse ponto, eu tinha a sensação que estava seguindo por dentro do Paraíso, ao nosso lado se multiplicavam grandes árvores intercaladas por arbustos menores, quando olhávamos para cima, as copas quase não deixavam avistar o céu. Passados alguns minutos, que nos pareciam eternos tais as belezas que podíamos apreciar, começávamos a perceber que estávamos sobre um barranco e que lá embaixo estava a praia. De repente uma clareira se abria e podíamos avistar um casarão pintado de branco com alguns detalhes em azul, era a Casa Grande do Sítio Conceição, toda circundada por um belo jardim e uma pequena praia bem na sua frente.

Casa Grande do Sítio Conceição (Foto: Eduardo Brandão).

Minha família guardava antigas e saudosas relações com os Silva, proprietários do Sítio. Quando jovem, minha bisavó Sinhazinha, mãe do meu avô Lauro Brandão, costumava ir de barco passar férias naquela localidade, pois ela era amiga das filhas do casal José Leocádio da Silva e Maria do Carmo da Silva, construtores do Sítio. Meu bisavô, Francisco Cardoso, morador de Mosqueiro, esteve por lá algumas vezes no exercício das suas funções de parteiro e Juiz de Paz, seus filhos Cláudio e Euvaldo foram alunos da professora Antonica, filha de Leocádio e Maria do Carmo. Minha mãe, Maria de Lourdes, iniciou seus estudos no Externato São Geraldo que ficava na Rua Joaquim Távora, na Cidade Velha, de propriedade da professora Antonica, tendo sido aluna dela e da sua irmã Ritinha. Este estabelecimento de ensino foi fechado por ordem do Governador Magalhães Barata ao saber que os Silva eram adversários dele na política.

Acesso à prainha da Conceição (Foto: Eduardo Brandão).

Como o leitor do Blog Mosqueiro Pará Brasil pode ver, eram por essas e por outras razões que sempre íamos visitar os descendentes dos Silva no Sítio Conceição. Nesta publicação pretendo oferecer um pouco sobre a história desta propriedade, algumas curiosidades e os detalhes arquitetônicos da mesma.

Um pouco de História.

O terreno onde se localiza o Sítio Conceição é resultado do desmembramento das terras ocupadas por Simão Nunes e doadas, em 06 de dezembro de 1746, para o seu filho, Padre Antônio Nunes da Silva, através de Carta e Data de Sesmarias. Integrante da terceira geração dos Silva, Tomaz da Silva com sua esposa Izabel tiveram quatro filhos: Fernando, Jorge, Leocádio e Tomaz Filho. Para cada filho ficou uma determinada porção de terra. Desse modo, essa propriedade foi assim dividida: ao Fernando, coube o sítio Paraíso; ao Jorge, o Sítio Paissandu; ao Leocádio, o sítio Conceição; e ao Tomaz Filho, as áreas de terra da Fazendinha. Maiores detalhes sobre essa história, já foram relatados no Blog Mosqueiro Pará Brasil através do artigo A família Silva e as terras da Baía do Sol em Mosqueiro.

Imagem da Virgem da Conceição, devoção de Leocádio e sua família (Foto: Eduardo Brandão).

Assim sendo, o Sítio Conceição foi construído pelo capitão da Guarda Nacional, Leocádio José da Silva, com auxílio de seus escravos em uma localidade inicialmente denominada “Paraguai”. O velho Leocádio era profundamente religioso e devoto da Virgem da Conceição, razão do nome de sua nova propriedade. Casado com Maria do Carmo Silva, Leocádio teve sete filhos, Leocádio da Silva Júnior, Isabel da Silva, Mariana Augusta da Silva (Perdigão), Rita do Espírito Santo da Silva (Alvares), Antônia Paes e Silva, Gabriel Arcanjo da Silva e Florêncio José da Silva, este último genitor de Bento José da Silva, conceituado contador. Durante muito tempo, coube ao filho de Bento, João Cláudio Cordeiro da Silva, funcionário do Banco do Brasil, a tarefa de cuidar e preservar com muito carinho e dedicação essa preciosa herança, tão importante para a história e para a cultura de Mosqueiro. Com o falecimento do João Cláudio, seu filho, conhecido como Claudinho, passou a ser o responsável pela propriedade.

Perspectiva da Casa Grande do Sítio Conceição (Foto: Eduardo Brandão).

Curiosidades

·         A Capela do Sítio Conceição:

Em 1864, Leocádio construiu, anexa à Casa Grande, uma Capela para a devoção de Nossa Senhora da Conceição, possuindo uma entrada especial e uma sala contígua, conhecida como a “Sala do Padre”.

Varanda da Casa Grande do Sítio Conceição, à esquerda a entrada da Capela (Foto: Eduardo Brandão).

Em 16 de dezembro de 1884, seu proprietário enviou um requerimento ao Bispo solicitando permissão para “benzer o seu oratório na Casa de sua residência, e fazer nele a Celebração do Santo Sacrifício da Missa e ministrar os Sacramentos do Batismo, da Penitência, sem prejuízo dos direitos paroquiais”. A grande distância do Sítio até a Vila do Mosqueiro ou da Baía do Sol e a dificuldade de acesso, foram os seus argumentos para convencer o Bispo. Havia a necessidade daquela Capelinha ou Oratório para atender, pelo menos, aos moradores daquela parte da Ilha do Mosqueiro, quase esquecida pelos administradores desde aquela época.

Altar da Capela do Sítio Conceição (Foto: Eduardo Brandão).

A licença foi concedida e a Capela recebeu sua benção em 10 de janeiro de 1885, pelo Padre Castilho, então vigário de Benevides. Essa licença foi renovada em 17 de novembro de 1887, aprovada e despachada em 10 de dezembro de 1889, pelo monsenhor Arcediago Coelho.

D. Lustosa certa vez, quando de sua Visita Pastoral àquelas terras, disse que “sentia na Casa Grande da Conceição, com sua linda Capela, uma verdadeira Catedral em miniatura”. Ele sempre pernoitava na Conceição.

Altar e retábulo com pintura erudita na Capela do Sítio Conceição (Foto: Eduardo Brandão).

Foram as filhas de Leocádio, Rita e Antônia, as idealizadoras da procissão que ocorre todo no dia 8 de dezembro percorrendo as matas da propriedade e prestigiada por um grande número de moradores da Baía do Sol. Relembrando sua juventude na Conceição, Antônia relatou ao historiador Augusto Meira Filho que viu ali um oficial de marinha, doente e que só caminhava de muletas, retornar para Belém curado deixando na Capelinha as muletas como lembrança do milagre que havia conquistado nas águas e na praia de Mosqueiro, mais precisamente na praia que fica em frente ao Sítio Conceição. Esse relato corrobora com a tese que defende a importância de Mosqueiro para a saúde de muitos, o Mestre José Sidrim, meu bisavô Francisco Cardoso e o pai da escritora Raquel de Queiroz são alguns exemplos.

Celebração de Missa campal no Sítio Conceição (imagem da internet).

Procissão no Sítio Conceição (imagem da internet)

A querida professora também recordava das Pastorinhas do Natal, os banhos de cheiro no São João e as festas memoráveis em louvor à Conceição, celebradas anualmente pelo seu pai.

·         A Política em tempos idos:

A Professora Antonica, como era conhecida Antônia, filha de Leocádio, também relatou ao historiador Augusto Meira Filho que sua família sempre foi simpatizante do político paraense Lauro Sodré, adversário do Senador Antônio Lemos. Em tempos onde a rivalidade entre “lauristas” e “lemistas” era acirrada, o Sítio Conceição foi alvo de um atentado no mínimo curioso. Em pleno carnaval, um “lemista” entrou sorrateiramente na casa de Leocádio e jogou confeti nas panelas de comida, estragando o almoço, e escafedendo-se pela praia.

Governador Lauro Sodré       Senador Antônio Lemos


Formada na escola Normal, em 1903, a professora Antonica precisava trabalhar e desejava uma colocação no ensino na Capital. Seu pai jamais permitiu que ela solicitasse qualquer favor ao velho Antônio Lemos, líder político mais influente na época em que o Pará era governado por Augusto Montenegro. Com a morte de seu pai, Antonica procurou Lemos, mantendo com o Intendente de Belém o seguinte diálogo:

Lemos – “Por quê a senhora professora não me procurou há mais tempo, já que formou-se em 1903” (Era o ano de 1908)

Professora Antonica – “Porque, Senador, meu pai era 'laurista' apaixonado e não permitia e nem admitia que uma filha sua pedisse favores ao Sr. Senador Lemos. Fomos por ele proibidas de assim proceder, fosse o fosse...”

Lemos – “O Lauro é mais feliz do que eu com os seus amigos porque são leais! São sinceros...”

Em seguida, Lemos chamou o secretário e mandou nomeá-la professora estadual na Vila do Mosqueiro. Lecionou no Grupo Escolar “Mâncio Ribeiro”.

·         A Prainha da Conceição e a Praia do Padre:

Na frente da Casa Grande do Sítio Conceição existe uma pequena enseada onde encontramos a “Prainha da Conceição” que sempre foi frequentada por seus proprietários e visitantes. Após a formação rochosa existente no lado esquerdo da prainha, podemos avistar a baía do Sucurijuquara, a ilha do Maracujá e a praia do Paraíso. Bem à frente temos a ilha das Pombas formada por pedras escuras e alguma vegetação. No lado direito, depois de ultrapassar algumas pedras, chegamos à outra praia, é a “Praia do Padre”. Essa denominação se justifica pela necessidade de oferecer mais privacidade aos religiosos que para lá se deslocavam com o objetivo de celebrar missas, casamentos, batizados ou simplesmente visitar a família.

Prainha localizada na frente do Sítio Conceição (Foto: Eduardo Brandão).

Vista da Praia do Padre (Foto: Eduardo Brandão).


Vista da Ilha das pombas, localizada em frente à prainha da Conceição (Foto: Eduardo Brandão).


Vista da Baía do Sucurijuquara e a Praia do Paraíso ao fundo (Foto: Eduardo Brandão).


Nessas praias podemos avistar dois tipos de armadilha para capturar peixes. Os “Currais” ou “Cacuris”, de origem indígena e as “Camboas”, técnica trazida por escravos africanos que trabalharam no Sítio Conceição. Os “Currais” são confeccionados com talas de Paxiúba, enquanto as “Camboas” são formadas por pedras arrumadas de maneira a aprisionar o pescado com a descida da maré.


Cacuri ou Curral na Baía do Sucurijuquara, armadilha para capturar peixes de origem Tupinambá (Foto: Eduardo Brandão).


Aspectos Arquitetônicos.

Em sua obra Vivendas Rurais do Pará – Rocinhas e outras, o arquiteto e professor do curso de arquitetura da Universidade Federal do Pará, Roberto de La Rocque Soares, descreve que, durante a pesquisa sobre as Rocinhas, surgiu, em paralelo, referências diversas a outras vivendas rurais como: sítios, chácaras, fazendas, fazendolas, retiros, dentre outros. Por uma opção metodológica da pesquisa o trabalho ficou restrito aos vocábulos “Rocinha”, “Sítios” e “Chácaras”.

Fachada da Casa Grande do Sítio Conceição (Foto: Eduardo Brandão).

Vista da Varanda da Casa Grande do Sítio Conceição. No detalhe o sino (Foto: Eduardo Brandão).

Sem abusar de preciosismo desnecessário, o pesquisador aponta três aspectos para entender o que levavam os paraenses a distinguir sítios e rocinhas: acesso, partido geral e denominações. Enquanto o acesso às rocinhas era por terra, os sítios, em geral localizados às margens dos rios da região, tinham como seu primeiro e às vezes o único acesso, os caminhos de água. Quanto ao Partido Geral Arquitetônico dos prédios principais (as “casas grandes”) dos sítios, não havia a preocupação de proteger o setor íntimo da moradia dos transeuntes através de varandas no seu perímetro, somente a adaptação ao clima. Os sítios eram habitualmente conhecidos pelos nomes dados pelos seus proprietários. Já as rocinhas poucas tinham denominação.

Varanda da Casa Grande do Sítio Conceição (Foto: Eduardo Brandão).


O Sítio Conceição integra o conjunto de sete vivendas onde seus aspectos arquitetônicos foram levantados e devidamente registrados através de fotografias, tabelas discriminando os elementos construtivos, planta baixa e elevações.

Elementos construtivos do prédio principal do Sítio Conceição

Item
Discriminação
Local e acesso
Mosqueiro, Baía do Sol, Praia da “Conceição”, em frente a Ilha das Pombas.
Estado de Conservação
Razoável, exigindo reparos continuados. É utilizada para os fins de semana ou veraneio.
Pisos
Cimentado na grande varanda; ladrilho hidráulico regional na varanda anexa. Assoalho de tábuas largas nos dormitórios. Cimentado vermelho em apenas um dormitório utilizado como depósito. Lajotas cerâmicas atuais na Capela.
Altura do Assoalho
Variação de 0,50 a 1,60m em função do desnível do terreno em direção à praia.
Paredes Externas
Enxaimel as antigas, quase todas hoje substituídas por madeira.
Paredes Internas
Idem, idem.
Pé direito de 3,60 e 2,35, varia.
Varandas e Pátios
Varanda principal de acesso na fachada (N) com parapeito de fechamento sem janelas em cima.
Pequena varanda posterior (S).
Forros
Só existem na Capela, com tratamento em losangos salientes, substituindo a antiga talha, mais erudita.
Telhados
Telhas de barro tipo “canal” no prédio principal e de barro retangulares, no anexo.
Estrutura: madeiramento rústico roliço.
Beirais
Caibros brutos roliços com “cachorros” trabalhados com desenho simples, 0,70m.
Escadas
Todas em alvenaria de pedra e cimento, antigamente alisado.
Capela
Dedicada à “Nossa Senhora da Conceição”. Tem sacristia anexa. Altar e retábulo (com pintura erudita) conserva imagem e castiçais originais.
Ambiente, Paisagem e Cruzeiro
Segundo seus proprietários, a paisagem é mesma de 100 anos atrás. O prédio principal e o cruzeiro na frente dominam a visão próxima à praia. No cruzeiro eram enterrados os nat mortos da família. Há um antigo sino na fachada que está voltada para a praia.


Planta Baixa da Casa Grande do Sítio Conceição




Elevações da casa Grande do Sítio Conceição



Fotografias

Entrada Principal da Casa Grande do Sítio Conceição (Foto: Eduardo Brandão).

Varanda da Casa Grande do Sítio Conceição (Foto: Eduardo Brandão).

Detalhe do Telhado do Sítio Conceição (Foto: Eduardo Brandão).

Interior de um dos quartos do Sítio Conceição (Foto: Eduardo Brandão).

Detalhe da escápula para pendurar redes no Sítio Conceição (Foto: Eduardo Brandão).

Janelas em um dos quartos do Sítio Conceição (Foto: Eduardo Brandão).

Varanda onde a família faz suas refeições no Sítio Conceição (Foto: Eduardo Brandão).

Acesso à cozinha do Sítio Conceição (Foto: Eduardo Brandão).

Detalhe do telhado e da porta principal do Sítio Conceição. Segundo relato de seus proprietários, algumas das telhas ainda existentes foram moldadas na coxa dos escravos que trabalharam na propriedade (Foto: Eduardo Brandão).

Detalhe de janelas em um dos quartos do Sítio Conceição (Foto: Eduardo Brandão).