Farol de Mosqueiro

Farol de Mosqueiro
Farol de Mosqueiro

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Uma rua chamada Luís Clementino de Oliveira.

Dedico esse texto aos meus pais, Ivens e Lourdes Brandão.


Minha história em Mosqueiro está inexoravelmente ligada à Rua Luís Clementino de Oliveira, ou simplesmente a Rua “Clementina”. Chegando a Mosqueiro, passando pela pracinha do Chapéu Virado, dirigindo-se para a Vila através da Avenida 16 de novembro, conhecida por muitos como a Rua das Mangueiras, a “Clementina” é a primeira rua que dá acesso à praia dobrando à direita.

Procurei saber quem teria sido Luís Clementino de Oliveira. As informações que obtive dão conta que ele era um ferrenho “cabo eleitoral” do então governador do Estado, Magalhães Barata. Por esse motivo foi homenageado dando o nome àquela rua. O jornalista Paulo Maranhão, dono do jornal a “Folha do Norte” e adversário do Barata, se encarregou de apelidar o Luís Clementino de “Garça Molhada”. Também fiquei sabendo do grande receio que ele tinha em andar de navio, motivo pelo qual fez com que nunca estivesse na Ilha, pois a única forma de acesso, na época, eram os navios que faziam linha regular para o balneário. Ironicamente, Luís Clementino morreu afogado ao cair na água em uma das vezes em que foi recepcionar o Governador na chegada de uma de suas viagens ao interior do Estado.

(Chalé Minhoto)

Na primeira vez que vim para Mosqueiro, eu ainda era criança, e minha família se hospedou no Chalé Minhoto de propriedade do casal Deusdedth e Eunice Moura Ribeiro, amigos e compadres dos meus avós Lauro e Célia Brandão. O terreno onde estava o “Chalé Minhoto” ficava em frente à praia do Chapéu Virado, e se estendia até a Rua das Mangueiras (Av. 16 de novembro). Minhas lembranças registram que o Chalé tinha uma varanda com vista privilegiada da praia e nele ficava uma armação de ferro na qual podia ser armada uma rede. Entrando em seus cômodos, havia uma sala com um móvel sobre o qual foi colocada a miniatura de um belo barco. Seguindo adiante, vinha um corredor que dava acesso aos quatro quartos, depois a sala de refeições, um banheiro e a cozinha. No terreno, eu me lembro de forma bastante precisa a localização de cada árvore lá existente, particularmente de um murucizeiro que ficava na lateral esquerda da casa e cujo tronco o vento se encarregou de fazer crescer paralelo ao chão, isso permitia subi-lo com facilidade, eu adorava a aventura. Na frente da casa havia canteiros em formas geométricas limitados por pedras escuras e polidas, hoje sei que elas tinham sido retiradas da praia e que a água se encarregou de produzir suas formas e texturas. Passando ao lado deste terreno tínhamos um caminho de areia que já era denominado Rua Luís Clementino.

(Meu pai Ivens comigo e minha irmã Mônica na porta da casa do 'tio' Domingos)

Mais tarde, passamos a frequentar a casa do casal Domingos e Nilza Silva que, da mesma forma que o casal proprietário do Chalé Minhoto, era grande amigo dos meus avós. Ela foi construída em um terreno localizado na Rua “Clementina”, resultante do desmembramento do terreno do Chalé Minhoto. Em Mosqueiro havia a prática das casas receberem um nome e não um número, a casa do ‘tio’ Domingos, como nos acostumamos a chamá-lo, era denominada Nilza em homenagem à sua esposa. Nessa época minha irmã Mônica havia nascido e já começava a descobrir os encantos do lugar.

(Minha mãe Lourdes nos levando para passear na "Clementina") 

A atração provocada na nossa família, pelo conhecimento que tínhamos daquela rua, fez com que meus pais, Ivens e Lourdes Brandão adquirissem um terreno de propriedade da Sra. Fernanda Roberto, irmã da ‘tia’ Célia Vizeu, grande amiga de minha mãe. Inicialmente, o terreno media 10 metros de frente por 28,60 metros de fundo, o bastante para que meu pai, que é engenheiro, logo pensasse na construção de nossa casa. Abriu uma clareira no mato que lá existia, fez o projeto de um pequeno Chalé, idos de 1968, contendo sala, terraço, dois quartos, banheiro e cozinha, tudo somando 70 m², para o que contratou os operários e iniciou a construção. O desafio era grande, Mosqueiro não dispunha de água encanada e as necessidades da obra eram supridas por um olho d’água existente no fundo do quintal. Passados alguns anos, a área construída foi acrescida de mais um quarto e banheiro, enquanto o terreno foi aumentado em três metros de frente, adquiridos por valor simbólico, do amigo de meus pais, Antônio Vizeu.

(Nossa casa na "Clementina")

Lembro-me muito bem da preocupação do meu pai para que as paredes externas da casa, que eram de tijolo aparente, ficassem perfeitas. Para isso contratou um pedreiro já experiente no trato desse serviço. De fato, apesar dos tijolos não serem de primeira qualidade, pois foram adquiridos em uma olaria que ficava nas margens do Furo das Marinhas, o resultado foi tão bom, que nunca eu vi nada semelhante em termos de arremate de alvenaria, em minha opinião, uma obra de arte daquele anônimo operário. O telhado era coberto por ‘mini telhas’, menores que as usuais, e o acabamento era com pranchas de madeira cuidadosamente cortadas. Como não havia rede de abastecimento de água, meu pai mandou furar um poço tubular, novidade em Mosqueiro daquela época.

(Nossa casa na "Clementina")

Eu havia completado oito anos de idade quando ocupamos pela primeira vez a nossa casa. Ela ainda estava inacabada, piso e forro só havia nos dois quartos e no banheiro, mas o jardim começava a se formar com a minha mãe plantando flores em volta da casa, uma moldura que só a natureza podia nos proporcionar. Aliás, os serviços de acabamento se prolongariam por cerca de vinte anos... A geladeira era a gás e o fogão tinha somente três bocas. Meu avô, sempre atento às nossas necessidades, tratou de mobilhar a casa. Os móveis foram transportados em uma embarcação que partiu do igarapé das “almas”, que na época chegava até a Trav. Boaventura da Silva, onde hoje tem início a Avenida Doca de Souza Franco, e desembarcados em plena praia do Chapéu Virado por homens habilidosos e certamente muito fortes. O fornecimento de energia elétrica era bastante deficiente, por isso, candeeiros estavam sempre à disposição numa eventual necessidade.

(O jardim que começava a ser preparado)

Neste lado da Clementino, o casal Curt e Maizé Sequeira, pais do saudoso amigo Curt Jr., do Rodolfo e do Marcelo, também tinham construído a casa deles. Na esquina da praia, do lado oposto ao Chalé Minhoto, o advogado Egídio Sales e sua esposa Ivete, construíram a deles. Além da casa do ‘tio’ Domingos, também existiam as casas do Fernando Castro, a do José Rachid Sallé e sua esposa Arlete, e a do casal Otávio e Maria do Carmo Cascaes, com suas filhas Vera e Márcia.

(Meu avô Lauro Brandão, comigo e com a minha irmã Mônica em bom banho de praia)

Passado algum tempo, foi iniciada a construção do prédio Cerqueira Dantas. Depois de pronto, as famílias que adquiriram apartamento vieram a frequentá-lo com bastante assiduidade e não demorou para surgir fortes laços de amizades entre os adultos, os jovens e as crianças. Mais uma vez, lançando mão de minhas lembranças, registro as seguintes famílias: Agostinho e Esther Barros e seus filhos Agostinho Jr., Silvia e Márcio; Alípio e Vilma Martins com seus filhos Alípio Jr., Elza, Adriano e Gersom; Ibrahim e Janete Darwich com seus filhos Ibrahinzinho, Jaqueline e Jane; Manoel Leite Carneiro, sua esposa Nair e seus filhos Regina, Nádia e Manoelzinho; João Costa com sua esposa e os, filhos Eduardo e Augusto; Wilson e Marilene Carvalho, com seus filhos Arlindo, Luís e Vilma; Orlando e Maristela Silva, com seus filhos Osmã e Adriene. Mais tarde, o apartamento que pertencia ao Alípio Martins foi vendido para o médico Délio Guilhon.

À medida que o tempo passava outras casas foram construídas. O casal Edir e Virgínia Batista, com seus filhos, George, José Carlos (o Zeca), Edirzinho e Luciana, passaram a serem nossos vizinhos mais próximos. Muitas lembranças boas ficaram das pescarias que participei com o ‘tio’ Edir. O médico Canuto Brandão, e os advogados Carlos Zoghbi e Arthur Melo também fizeram as suas casas de veraneio e, juntamente com suas famílias, estavam sempre presentes.

Durante as férias e nos finais de semana prolongados a Clementina ficava bastante povoada. Cada família tinha seu jeito próprio de curtir aqueles momentos. O casal Curt e Maizé costumava levar uma lancha e fundeá-la na direção da rua. Nas manhãs de sol o Curt saía com a lancha puxando a ‘tia’ Maizé que era eximia esquiadora, todos se admirando com a destreza como ela executava aquelas evoluções. Na nossa casa, todas as noites reuniam-se alguns amigos para conversar e contar seus casos e tomar um cafezinho, enquanto eu ficava admirado como eles tinham tanto assunto. Outros vizinhos gostavam do carteado, e por isso viravam a madrugada. Outros preferiam fazer sua roda, e junto com uma boa prosa, beber uma cerveja geladinha, uma dose de whisky ou uma boa batida de cana com fruta.

Pela manhã, os jovens iam para a praia onde rolava a inevitável paquera. Enquanto as meninas ficavam tomando banho de sol, os meninos caíam na água, principalmente para aproveitar as ondas e pegar um “jacaré” com as pranchas de isopor que eram comuns naquela época. Algumas figuras eram cativas e aguardadas diariamente. O vendedor de picolé da Cairu, conhecido como Inácio, era uma delas. Também havia o vendedor de beijo de moça, de raspa-raspa e de pirulito, aqueles em forma de cone com uma bandeirinha colorida feita de papel de seda. Não era preciso levar dinheiro para a praia, pois os vendedores conheciam onde morávamos e depois iam cobrar.

Despois do almoço, respeitado o horário em que nossos pais dormiam a sesta, o futebol sempre foi um grande atrativo. Para atender essa expectativa, meu pai construiu um campinho, inicialmente de areia e depois gramado. Fazendo sol ou chovendo, logo um número grande de meninos se reunia para formar os times e começar as partidas, quem não começava jogando esperava na ‘grade’ que normalmente era numerosa. Entre os jogadores também faziam parte alguns meninos, moradores de Mosqueiro, que tenho orgulho de dizer que se tornaram meus grandes amigos, quando ora lembramos o Edilsom, o Toinho, o Raimundinho, o Gigante, o Calado, o Reginaldo, o Roberto (Pelé), entre outros. Houve um ano em que o Curt montou um campo de areia no terreno que ficava ao lado da casa dele, e mesmo assim os dois estavam sempre lotados. Como as meninas não jogavam bola (com honrosas exceções), o campinho na casa de meus pais passou a receber disputadas partidas de vôlei. Jogadores e jogadoras chegavam de vários lugares. A “Clementina” virou pólo de atração para muitos que passavam férias em Mosqueiro e de integração entre mosqueirenses e belenenses.

Depois de uma tarde cansativa, mas prazerosa, logo estávamos reunidos novamente. Alguns iam conversar fiado, outros iam namorar, outros jogar “Banco Imobiliário”e outros andar de bicicleta. Quando éramos moleques, na época em que o edifício Cerqueira Dantas ainda estava em construção, a novidade era brincar de “31 alerta”, brincadeira onde um de nós contava até 31 e depois tinha que encontrar os demais, o prédio em construção era o esconderijo ideal. A criatividade não tinha limite para aqueles meninos e meninas, sendo o térreo do prédio transformado em ‘autódromo’ e as nossas bicicletas em máquinas semelhantes a da ‘Fórmula 1’.

A “Clementina” era o caminho predileto de muitos que desciam para passear a noite na orla da praia do Farol e do Chapéu Virado. Em frente da casa dos meus pais ainda existia um terreno que no passado foi quintal do “Chalé Minhoto”, assim provocando o espírito brincalhão presente entre nós, que fez com que inventássemos uma brincadeira. Amarrávamos um ramo de folha de açaizeiro ainda fechado, na ponta de uma linha, colocávamos dentro do terreno e do outro lado, com a linha na mão ficávamos esperando alguém se aproximar. O que acontecia depois, vocês devem imaginar. Puxávamos a linha e o alerta era dado – cuidado, uma cobra. A correria era certa e a diversão garantida...

Como já foi dito neste texto, no início a “Clementina” não passava de um caminho de areia, que aos poucos foi ganhando melhoramentos em sua infra-estrutura. Começou por uma camada de piçarra e definição da drenagem que era feita através do meio fio e duas “bocas de lobo”, que conduziam a água da chuva diretamente para uma área baixa existente atrás casas localizadas do lado esquerdo da rua. A falta de fiscalização permitiu que essas valas fossem obstruídas causando os problemas existentes hoje. Passado algum tempo, colocaram uma pintura asfáltica coberta por fina camada de areia para protegê-la enquanto secava. Rede de abastecimento de água e iluminação pública também passou a existir.


Tenho certeza, que naquelas pessoas que frequentaram a “Clementina” nas décadas de 60, 70 e 80, muitas recordações boas ficaram. A palavra saudade, certamente é a que melhor define o sentimento atual em todos eles. Amizades nasceram, experiências, sensações e descobertas foram vividas. Sinto, até hoje, a frustração pelo fato da casa construída pelos meus pais ter sido vendida. Afirmo com bastante convicção que, naqueles anos de minha vida, Mosqueiro me proporcionou grandes alegrias. O que faço hoje por este lugar é muito pouco, se comparado a tanto que recebi.

Costas mosqueirenses (1935 - julho).


Arcebispo do Pará de 1932 a 1941, Dom Antônio de Almeida Lustosa, chegou a Belém a 15 de dezembro daquele ano, após ter ocupado o sólio episcopal de Uberaba, em Minas Gerais, e de Corumbá, Mato Grosso do Sul. Durante os nove anos da sua jurisdição percorreu, sem medir sacrifícios, sedes paroquiais, vilas e povoações, sempre observando coisas, pessoas, fatos e curiosidades por onde andava. O texto que o leitor do Blog Mosqueiro Pará Brasil verá abaixo é o relato feito por Dom Lustosa a respeito de visita feita ao Sítio Conceição onde há uma capelinha dedicada à Virgem de mesmo nome.

Vamos para Conceição. Não fomos felizes na escolha da hora da partida. A lancha que nos transportava, em fortes guinadas ia vencendo os vagalhões, mas os passageiros não se sentiam muito a vontade. Felizmente o vento não havia; os banzeiros eram simplesmente em razão da maré que nessa costa é sempre um tanto empolada, principalmente por ocasião da lua nova ou da lua cheia e estava em plenilúnio. A Ilha das Gauribas nos mimoseou com seus costumados maroiços. Todo viajante dessas paragens conhece as Guaribas. São tristemente célebres pelos naufrágios que se têm dado ali.

(Ilha das Guaribas)

Todos sabem guaribas são macacos de certa espécie. Não é provável, porém, que houvesse macacos, nessa ilhota tão pequena. O nome, ao que parece, provém de duas rochas que ali se erguem e quase iguais, parecendo dois grandes macacos guaribas.

Pode ter concorrido para a designação da ilha o marulhar das ondas que por vezes se torna ali muito soturno. Um bando numeroso de guaribas quando se põe a roncar, de longe se lhes ouve o rumor, surdo, cavernoso. Os caboclos quando passam sem ouvir aí o marulhar das ondas dizem: “As guaribas estão dormindo”.

A agitação das águas melhorou um pouco quando nos aproximamos da praia do Caruara.
Passamos nas duas pequenas ilhas do Maracujá e das Pombas.

A do “Maracujá” toda coberta de vegetação e próxima da praia é pouco conhecida. Pelas árvores estende seus festões a conhecida passiflora que lhe deu o nome.

(Ilha do Maracujá)

A “das Pombas”, todos os que viajam pela Baía do Sol a conhecem pois lhe evitam as proximidades quando saem da baía ruma a Belém. Nessa ilha, árida em parte, há alguma vegetação; especialmente cresce ali o ajuru, fruto muito apreciado dos pombos. Naturalmente, por isso, a ilha se tornou frequentada das poéticas colombinas, vulgarmente chamadas torcazes ou pombas galegas.

(Ilha das Pombas)

Não longe da ilhota de “Maracujá”, acha-se o escolho denominado Acostumado. O costume a que o nome faz referência é o de despedaçar embarcações. É uma grande pedra que apenas aflora à tona quando baixam as águas. Em geral as embarcações não se partem quando a abalroam, cavalgam a pedra e as águas a cada instante as levantam e as deixam cair sobre ela. Esses golpes repetidos desconjuntam os barcos que não podem sair e ficam condenados a servir de “malho” para a terrível bigorna do Acostumado.

Deixamos atrás o Paraíso bem perto do igarapé “Sucurijuquara”. A ideia de paraíso e serpente se associa facilmente. Esse Paraíso teve mais ou menos, a mesma sorte do Eden. Era outrora florescente, teve sua bem cuidada capela: hoje não é bem o Paraíso Perdido de Milton, mas tampouco é o ameníssimo Jardim que nossos primeiros pais gozaram, nem mesmo o que os antigos proprietários conheceram.

(Foz do Igarapé Sucurijuquara)

Chegamos ao Sítio Conceição onde há uma capelinha dedicada à Virgem Imaculada. Bela situação da vivenda junto à qual se abre o pequenino Santuário da Virgem. Que belas ondas se vêm quebrar naquela praia de areia e penhascos.

(Casa Grande do Sítio Conceição)


Na frente da casa, coqueiros sinuosos e inclinados erguem suas copas seus cachos. Original é a inclinação desses coqueiros com relação às outras árvores. Por via de regra a árvore se inclina na direção para qual sopram com mais constâncias os ventos. É natural: vergadas quase sempre para esse lado, acabam inclinando-se nesse sentido. O coqueiro, porém, não segue essa lei; parece um revoltado contra a mecânica: ele se inclina contra o vento. É naturalmente a reação contra a força que sofre constantemente. Junto de outra árvore inclinada da costa, portanto, o coqueiro não será paralelo a ela, mas divergente dela ou convergente com ela conforme ele estiver à direita ou à esquerda dessa árvore.

(Os coqueiros da Conceição)

(Enseada da Conceição e seus coqueiros)

(Texto reeditado do Livro No Estuário Amazônico - Á margem da visita pastoral)

Carananduba (1933).



Arcebispo do Pará de 1932 a 1941, Dom Antônio de Almeida Lustosa, chegou a Belém a 15 de dezembro daquele ano, após ter ocupado o sólio episcopal de Uberaba, em Minas Gerais, e de Corumbá, Mato Grosso do Sul. Durante os nove anos da sua jurisdição percorreu, sem medir sacrifícios, sedes paroquiais, vilas e povoações, sempre observando coisas, pessoas, fatos e curiosidades por onde andava. O texto que o leitor do Blog Mosqueiro Pará Brasil verá abaixo é o relato feito por Dom Lustosa a respeito de visita feita por ele à Vila do Carananduba em 1933.

Quem de “Chapéu Virado”, em viagem de circunavegação, prossegue pela costa da ilha do Mosqueiro, passa por Murubira, Ariramba, São Francisco, Carananduba, Maraú, Caruara (provavelmente o nome é Carauara – Carauá, planta conhecida), Paraíso, Sucurijuquara (buraco ou local de morada da sucuriju – sucurijú designa a grande serpente como uma árvore das anacardiáceas), Paissandú, Conceição, Fazenda, etc.

Carananduba é uma povoação a pequena distância do Chapeú Virado. A enseada que lhe deu o nome é um belo semicírculo entre duas pontas de São Francisco e Maraú. Na preamar oferece bom abrigo às embarcações; na baixamar fica com pouquíssima água. Nessa enseada desembocam os igarapés Coqueiro e Carananduba. O vocábulo carananduba significa muita caranã. Caranã designa uma palmeira elegante (Copernica cerifera) semelhante ao açaizeiro, de cujos frutos se prepara uma bebida com se faz com o açaí. A população de Carananduba é humilde, mas educada e de ótimos sentimentos.

Carananduba foi do número das povoações fortemente flageladas pelo impaludismo. Ainda não cessou o mal; a quadra, porém, de maior virulência já passou. Os vestígios do mal ainda são bem marcados. Quantos organismos combalidos! Quanto luto! A casa em que nos albergamos era modesta. Situada no centro do arco do semicírculo da enseada (diríamos melhor, talvez, mas em linguagem destoante da simplicidade a que nos cingimos no ponto inicial do apótema tirado da praia como corda do semicírculo da enseada) a humilde casa tinha, diante de si, um panorama esplêndido nas suas grandes linhas e gracioso nos pormenores próximos. O mar em frente tinha por limite, no horizonte distante, a linha de Marajó. A enseada abria seus braços para abraçar essa vastidão líquida que muda a cada instante de fisionomia conforme o céu, o vento, a hora. A simetria parece caracterizar o panorama de Carananduba. A enseada é contornada por um arco de círculo geométrico. As pontas de São Francisco e do Maraú são duas balizas muito semelhantes. Perto de “São Francisco” há uma pedra “Itaquara” em posição homóloga ao escolho “Itapeua” próximo de “Maraú”, ambas perigosas quando há preamar porque encobertas aos navegantes. Itaquara (ita + quara) parece significar buraco de pedra ou simplesmente lugar de pedra. Itapeua deve ser de Itapeba – pedra chata ou pedra rasa.

Em frente a essa casa há um pé de abio inteiramente dominado por parasitas. Dir-se-ia um bando da gaviões que tivessem pousado sobre a vítima indefesa para devorá-la. Eram bromeliáceas em grande número. Pouco além, um pé de uxi (dizem outros uixí) e mais algumas árvores frutíferas. À sombra do pomar, um poço é meta de muitos moradores que aí haurir água potável, pois a enseada é salgada. Não fosse o flagelo do impaludismo e mui aprazível seria Carananduba, cujos filhos se distinguem pelo espírito religioso.


Junto às moradias do interior é muito comum elevar-se um hotel de japiins. São árvores cujos ramos vergam ao peso de numerosos ninhos. Os japiins vão e vem, na azáfama de nidificar, de alimentar seus filhotes. Belos e gárrulos eles enchem de vida o ambiente e tornam festiva a moradia. Parece que instinto de conservação da espécie os localiza perto do homem. Diz-se que fogem das aves de rapina que devoram seus filhos. O japiim se domestica sendo recolhido em pequenino. Se, porém, os pais continuam a dar-lhe de comer na gaiola, como se faz para criar outras aves – conta-se – os pais lhe propinam frutos venenosos. É inverossímil, mas os caboclos o afirmam. Já se vê que o juízo de Salomão fracassaria diante da psicologia dos japiins.